Pesquisas científicas recentes têm revelado que antigas estruturas vulcânicas desativadas podem abrigar depósitos altamente valiosos de elementos de terras raras (ETR). Esses minerais são recursos essenciais para o desenvolvimento de tecnologias modernas, englobando desde a fabricação de veículos elétricos e turbinas eólicas até dispositivos eletrônicos cotidianos.
Estudos pioneiros conduzidos por geocientistas da Universidade Nacional da Austrália (ANU) e da Academia Chinesa de Ciências demonstram que vulcões extintos formados por magmas ricos em ferro possuem uma capacidade extraordinária de concentrar terras raras. Durante o lento processo subterrâneo de solidificação magmática de milhões de anos, esses elementos, como o neodímio, o lantânio e o térbio, acumulam-se em minerais específicos de forma extremamente concentrada. Em simulações laboratoriais de alta temperatura e pressão (reproduzindo condições a cerca de 15 quilômetros de profundidade na crosta terrestre), os pesquisadores constataram que o magma rico em ferro atua como um “ímã químico”, absorvendo terras raras com uma eficiência quase 200 vezes superior à dos magmas comuns que alimentam os vulcões ativos contemporâneos.
IMPORTÂNCIA ECONÔMICA E TECNOLÓGICA NO CENÁRIO GLOBAL
Os elementos de terras raras são vitais para a produção de ímãs permanentes de alta potência aplicados nos motores de veículos elétricos, dão eficiência às turbinas eólicas, integram painéis solares, viabilizam baterias de alta capacidade e equipam aparelhos médicos de alta precisão.
Com a aceleração das metas climáticas internacionais, a demanda global por esses elementos estratégicos está em ritmo de crescimento exponencial. Projeções oficiais da Comissão Europeia indicam que a demanda por terras raras deve multiplicar por cinco (um aumento de 500%) até o ano de 2030. Essa explosão no consumo contrasta com um grave gargalo de segurança de suprimentos: a produção desses minerais críticos é altamente concentrada em pouquíssimos países, sendo fortemente dominada pela China, que controla a maior jazida do planeta e detém o monopólio de mais de 90% da fabricação mundial de ímãs permanentes. Essa dependência gera elevados riscos geopolíticos para as cadeias globais de suprimentos.
Nesse cenário de disputa, o Brasil surge como um dos protagonistas estratégicos do planeta. O país detém a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas registradas (o que representa aproximadamente 23% de todo o potencial geológico global). O governo brasileiro, ciente dessa oportunidade histórica, tem mobilizado esforços para estruturar uma cadeia industrial integrada no país: em uma chamada pública recente, a Finep e o BNDES aprovaram R$ 45,8 bilhões em planos de negócios para minerais estratégicos, destinando 10 desses projetos exclusivamente ao segmento de terras raras.
Esse imenso potencial geológico, mapeado em estados como Goiás, Minas Gerais, Bahia, Amazonas, Rio de Janeiro, São Paulo e Roraima, atrai intensamente a atenção de potências ocidentais. Os Estados Unidos, em sua busca por mitigar a dependência do fornecimento chinês, manifestaram formalmente, por meio de sua representação diplomática no Brasil, o desejo de celebrar parcerias e acordos bilaterais estratégicos de fornecimento desses minerais críticos.
O CASO BRASILEIRO: COMPLEXO ALCALINO DE POÇOS DE CALDAS
O exemplo mais expressivo e promissor desse potencial mineral de vulcanismo extinto no território brasileiro está no Complexo Alcalino de Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais. A antiga cratera vulcânica da região abriga uma jazida capaz de gerar até 300 milhões de toneladas de minério de terras raras. Segundo projeções técnicas, este depósito possui capacidade geológica de suprir cerca de 20% de toda a demanda de mercado global de terras raras.
A relevância global de Poços de Caldas não decorre apenas do gigantesco volume mineralógico, mas também de uma exclusividade geológica e metodológica de exploração: os minerais da jazida estão depositados em argilas iônicas (argilas com íons de terras raras) localizadas a apenas cerca de 30 metros de profundidade. Esta conformação próxima à superfície confere à caldeira vulcânica mineira vantagens incomparáveis:
Eficiência de Custos: A extração do minério a partir das argilas iônicas rasas é estimada pelas mineradoras como sendo cinco vezes mais barata do que a exploração convencional em rocha dura e profunda. Dispensa-se a necessidade de grandes perfurações verticais, do uso massivo de dinamites e de maquinários pesados de britagem de alta complexidade.
Sustentabilidade Operacional (Backfill): A lavra é conduzida por meio de um processo contínuo de reabilitação ambiental chamado de backfill. Nesse sistema dinâmico, à medida que uma nova cava de argila é escavada na frente de lavra, a cava anterior, já exaurida, é simultaneamente preenchida e recuperada com o próprio solo estéril remanescente. Isso garante um impacto visual temporário reduzido e uma rápida restauração da cobertura vegetal da região.
Competitividade Internacional: Graças a essa combinação de baixo custo operacional, facilidade extrativa e grande volume, a cratera vulcânica de Poços de Caldas é apontada hoje como a única jazida conhecida no mundo ocidental capaz de competir diretamente em custos e escala com o monopólio de mineração exercido pela China.
Esse potencial prático já atrai investimentos internacionais concretos. Duas grandes companhias de mineração australianas estão em fase avançada de implantação de lavra na caldeira, abrangendo uma área de pesquisa e exploração de 420 km². Em apenas 15% dessa área mapeada, já foram identificadas 2 bilhões de toneladas de argila iônica rica em terras raras, volume que assegura mais de 20 anos de operação contínua a partir de meados de 2026 e 2027. Atualmente, das 361 autorizações de pesquisa de solo concedidas pela Agência Nacional de Mineração (ANM) no estado de Minas Gerais, cerca de um terço está concentrado na promissora região de Poços de Caldas.
DESAFIOS, PERSPECTIVAS E A REVOLUÇÃO ECOLÓGICA DA MINERAÇÃO
A consolidação do Brasil e das jazidas vulcânicas extintas como pilares da energia limpa global requer a superação de importantes desafios estruturais. A identificação de edifícios vulcânicos antigos que contenham a exata assinatura geoquímica rica em ferro, a otimização dos processos metalúrgicos de separação desses elementos e o cumprimento rigoroso das legislações de licenciamento ambiental demandam um planejamento estratégico que equilibre o desenvolvimento econômico com a preservação dos biomas locais. Entretanto, as pesquisas de laboratório abrem uma perspectiva ecológica extraordinária para solucionar o maior dilema socioambiental da mineração moderna: o reaproveitamento de operações de mineração já existentes e o reprocessamento de resíduos. Como os magmas ricos em ferro que concentram as terras raras são a mesma matéria-prima explorada em larga escala pela indústria siderúrgica tradicional, muitos dos vulcões extintos adequados para a busca desses minerais já são minas de ferro em plena atividade comercial. O exemplo mais notório é a histórica mina de Kiruna, na Suécia, que opera há décadas extraindo ferro e foi recentemente confirmada como a maior reserva de terras raras da Europa.
Essa sobreposição geológica traz duas grandes vantagens ambientais e econômicas:
Reprocessamento de Rejeitos: É cientificamente viável reprocessar as bacias de rejeitos e resíduos acumulados dessas minas de ferro para extrair de forma secundária as terras raras ali contidas, transformando passivos ambientais em ativos tecnológicos de alto valor.
Preservação de Ecossistemas: Ao adaptar as infraestruturas de mineração ativas para a coprodução de terras raras, a indústria de minerais críticos pode dispensar a abertura de novas minas terrestres (cavas verdes). Isso poupa florestas, evita novas intervenções na biodiversidade local e contorna longos e complexos processos de licenciamento, gerando uma transição energética genuinamente limpa desde a sua origem mineral.
CONCLUSÃO
Vulcões antes vistos apenas como monumentos geológicos do passado revelam-se hoje como os grandes motores tecnológicos do futuro. Para o Brasil, a caldeira de Poços de Caldas representa mais do que uma riqueza mineral extraordinária; constitui uma oportunidade histórica de liderança na transição ecológica, capaz de redefinir o equilíbrio geopolítico global de tecnologia e sustentabilidade.
Autora: Ingrid Christina Braga
REFERÊNCIAS
Australian National University (ANU) — Extinct volcanoes a rich source of rare earth elements.
Publicado em 18 de setembro de 2024. https://www.anu.edu.au/news/all-news/extinct-volcanoes-a-rich-source-of-rare-earth-element s
Chinese Academy of Sciences (CAS) — Research reveals extinct volcanoes as key sources of rare earths. Publicado em 26 de setembro de 2024.
https://english.cas.cn/newsroom/cas_media/202409/t20240926_690725.shtml
The Conversation — Humanity needs more rare earth elements — extinct volcanoes could be a rich new source. Publicado em 20 de setembro de 2024.
https://theconversation.com/humanity-needs-more-rare-earth-elements-extinct-volcanoes-co uld-be-a-rich-new-source-239410
Smithsonian Magazine — Extinct Volcanoes May Be an Untapped Source of Rare Metals. Publicado em 19 de setembro de 2023. 🔗 https://www.smithsonianmag.com/smart-news/extinct-volcanoes-may-be-an-untapped-source
United States Geological Survey (USGS) — Ancient volcanoes are critical to our modern world and our future. Publicado em 2024, série “Volcano Watch”. https://www.usgs.gov/observatories/hvo/news/volcano-watch-ancient-volcanoes-are-critical-o ur-modern-world-and-our-future
G1 – Sul de Minas (Globo) — Cratera de vulcão em MG pode suprir 20% da demanda global por terras raras, minerais estratégicos cobiçados pelos EUA. Publicado em 3 de agosto de 2025. https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2025/08/03/cratera-de-vulcao-em-mg-pode-su
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